Como a Coreia do Norte usa o futebol feminino como propaganda

Como a Coreia do Norte usa o futebol feminino como propaganda



O regime da Coreia do Norte encontrou no futebol feminino uma de suas principais vitrines de propaganda internacional. Tanto no âmbito de clubes quanto na seleção nacional, as norte-coreanas têm alcançado diversos êxitos em competições recentes pelo mundo, o que tem sido usado por Pyongyang para projetar unidade no exterior e reforçar a propaganda interna do regime.

Circulou nas últimas semanas nas redes sociais um vídeo onde jogadoras do Naegohyang Women’s FC, clube de futebol feminino de Pyongyang, e atletas da seleção norte-coreana sub-17 aparecem chorando e visivelmente emocionadas ao serem cumprimentadas, uma a uma, pelo ditador Kim Jong-un. O tipo de recepção costuma ser reservado a generais e altos dirigentes do Partido dos Trabalhadores da Coreia, legenda que controla o país.

O fato ocorreu durante uma partida amistosa realizada na capital norte-coreana entre o Naegohyang Women’s FC, que foi campeão da Liga dos Campeões Feminina da Ásia em maio, e a seleção sub-17 do país, que conquistou também no mesmo mês a Copa da Ásia da categoria ao golear o Japão por 5 a 1. Após a partida amistosa, Kim Jong-un cumprimentou individualmente as atletas das duas equipes, que reagiram com emoção diante do líder norte-coreano.

Segundo a agência estatal de notícias norte-coreana KCNA, as jogadoras foram saudadas como “mulheres confiáveis” e “filhas orgulhosas da pátria”, e teriam afirmado que “o carinho e a benevolência do respeitado camarada Kim Jong-un” as encorajavam a “êxitos esportivos ainda mais notáveis”.

Nos últimos anos, clubes e seleções de futebol feminino da Coreia do Norte têm alcançado resultados expressivos em competições internacionais. A conquista do Naegohyang em maio teve um peso histórico: foi a primeira vez que um clube norte-coreano venceu a Liga dos Campeões Feminina da Ásia, principal torneio de clubes do continente. Na final da competição, disputada na cidade de Suwon, na Coreia do Sul, o Naegohyang derrotou o Tokyo Verdy Beleza, clube de futebol do Japão, por 1 a 0, com gol da capitã Kim Kyong Yong, de 24 anos, que foi eleita a melhor jogadora da competição.

Além do ineditismo, o Naegohyang também foi a primeira equipe esportiva norte-coreana a visitar a Coreia do Sul em oito anos, em meio a um dos piores momentos das relações entre os dois países. Recentemente, Pyongyang abandonou formalmente a meta de reunificação e passou a classificar o vizinho ao sul como seu “Estado mais hostil”. Na semifinal daquela competição, o time eliminou justamente um clube feminino sul-coreano, o Suwon FC Women, por 2 a 1. Após a final contra o Tokyo Verdy, as jogadoras ergueram a bandeira norte-coreana no gramado do estádio em Suwon, em uma cena sensível para Seul: a exibição pública do símbolo do regime de Pyongyang é proibida na Coreia do Sul pela Lei de Segurança Nacional.

Por sua vez, além da vitória continental, a seleção sub-17 da Coreia do Norte também conquistou em novembro do ano passado o bicampeonato consecutivo da Copa do Mundo da categoria, ao golear a Holanda por 3 a 0 na final, realizada no Marrocos. Esse foi o quarto título mundial sub-17 do país, um recorde. As norte-coreanas também são as atuais campeãs mundiais sub-20, título conquistado em 2024, e venceram neste ano a Copa da Ásia sub-17. O retrospecto faz da Coreia do Norte a seleção mais vitoriosa da história dos torneios mundiais de base no futebol feminino, com 14 títulos.

O que está por trás?

A resposta mais precisa seria investimento e propaganda. A Coreia do Norte começou a investir no futebol feminino no final da década de 1980, quando a Fifa anunciou a criação da primeira Copa do Mundo Feminina. Segundo relatou o jornal The Guardian, a decisão levou o regime a enxergar a modalidade como uma oportunidade para ampliar a projeção internacional do país.

A partir disso, o então líder Kim Jong-il, pai do atual ditador Kim Jong-un, transformou o futebol feminino em uma prioridade de Estado, inserindo a modalidade nos currículos escolares e criando equipes ligadas às Forças Armadas, onde as atletas treinavam em regime integral e recebiam salário para jogar.

Em 2013, já sob o comando do ditador Kim Jong-un, o regime inaugurou a Escola Internacional de Futebol de Pyongyang. A instituição seleciona meninas e meninos a partir dos sete anos, vindos de diferentes regiões do país, e oferece formação esportiva e acadêmica até os 17. As primeiras gerações de meninas formadas ali estão hoje, segundo informações, na base dos títulos mundiais sub-17 e sub-20. Daí o resultado de um investimento planejado por mais de uma década.

Treinadores que passaram pela Coreia do Norte descreveram à imprensa internacional que os meninos e meninas que participam do programa de formação no país têm uma rotina de exigência extrema. Stephen Constantine, cidadão britânico que foi convidado pela Fifa em 2018 para capacitar técnicos na Coreia do Norte, disse à emissora CNN ter visto jovens atletas tendo que cruzar um campo em velocidade carregando outros colegas nas costas. “Era insano”, afirmou. Colin Bell, ex-técnico da seleção feminina da Coreia do Sul, disse à emissora americana que o futebol norte-coreano é baseado em repetição e disciplina desde a infância. “É treino, treino, treino desde muito cedo”, explicou.

Jeong Haneul, ex-jogador norte-coreano que fugiu para a Coreia do Sul em 2012, disse ao Wall Street Journal que os treinadores norte-coreanos tratam o futebol como uma guerra. Segundo ele, um chute ao gol é comparado a uma “bala do inimigo”, e uma falha defensiva era descrita como uma invasão de Pyongyang.

“Como atleta, você sempre recebe a mensagem de que está travando uma guerra de velocidade, habilidade e determinação”, afirmou.

De acordo com Jung Woo Lee, professor de política esportiva da Universidade de Edimburgo, as conquistas recentes da Coreia do Norte no futebol feminino são exploradas pelo regime como propaganda. Em entrevista à Deutsche Welle, ele afirmou que Pyongyang usa as vitórias para apresentar, dentro e fora do país, uma narrativa de suposta superioridade do socialismo sobre o capitalismo.

Segundo Lee, a narrativa oficial tenta associar o sucesso das atletas nas competições à disciplina ideológica e à lealdade ao Estado. Para o analista, essa mensagem é difundida internamente para reforçar a imagem de Kim Jong-un e do Partido dos Trabalhadores da Coreia.

As jogadoras norte-coreanas têm incentivos para vencer as competições. Segundo analistas e cidadãos norte-coreanos que conseguiram escapar do país ouvidos pela imprensa internacional, atletas bem-sucedidas na Coreia do Norte podem receber apartamentos em Pyongyang, porções extras de alimentos e até filiação ao Partido dos Trabalhadores, medidas que são consideradas parte de um privilégio.

“[Ganhar as competições] é uma forma de mudar de vida. É como ganhar na loteria”, disse Jung Woo Lee à DW.

A principal recompensa, porém, parece ser a simbólica: encontrar Kim Jong-un. À CNN, Brigitte Weich, diretora de cinema que acompanhou a seleção feminina norte-coreana por cinco anos para produzir um documentário, afirmou que atletas que vencem competições internacionais pelo país ganham a “oportunidade” de conhecer o líder. Foi o que ocorreu com as campeãs do Naegohyang e da seleção sub-17.

Escândalo, punição e retorno

O futebol feminino norte-coreano também teve uma fase de queda. Em 2011, durante a Copa do Mundo Feminina realizada na Alemanha, cinco jogadoras da seleção norte-coreana foram flagradas em exame antidoping por uso de uma substância proibida. A federação da Coreia do Norte alegou à Fifa que as atletas haviam ingerido uma substância natural como tratamento após terem sido atingidas por um raio. A justificativa foi rejeitada, e a seleção acabou banida de competições por quatro anos.

A punição tirou a Coreia do Norte da Copa do Mundo feminina de 2015. Posteriormente, a seleção não se classificou para a Copa da Ásia de 2018 nem para o Mundial feminino de 2019, e decidiu não disputar torneios em 2022 e 2023, alegando restrições da pandemia. Na prática, a seleção principal passou mais de uma década longe das grandes competições.

O retorno veio aos poucos. A equipe voltou à Copa da Ásia Feminina realizada em março deste ano na Austrália, e chegou às quartas de final da competição, quando foi eliminada pelas donas da casa. Agora, a seleção está classificada para a Copa do Mundo Feminina de 2027, que vai ser realizada no Brasil. Será a primeira participação norte-coreana no torneio em 16 anos, e uma nova chance para Pyongyang transformar desempenho esportivo em propaganda internacional.

Mais do que futebol

O uso político do futebol pelo regime norte-coreano ficou evidente no evento em que Kim Jong-un recebeu as jogadoras campeãs do Naegohyang e da seleção sub-17. Segundo a imprensa estatal, o ditador aproveitou a ocasião para cobrar mais formação ideológica dos jovens do Partido dos Trabalhadores da Coreia e alertar contra o que chamou de “deslizamento ideológico”.

Na ocasião, as atletas também foram usadas como exemplo de lealdade ao regime. Em declarações ao jornal sul-coreano Kyunghyang Shinmun Yang Moo-jin, professor da Universidade de Estudos Norte-Coreanos, em Seul, disse que o regime norte-coreano usa as conquistas esportivas das atletas para associar o sucesso delas à liderança de Kim Jong-un e reforçar a fidelidade ao Partido.



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